Observatório de Favelas representa o poder dos cidadãos organizados e sua capacidade transformadora
Andréa Azambuja, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 4 junho 2015
Pensar a favela como local de potência, não de ausências, é a força motora do Observatório de Favelas, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público criada em 2001 para produzir pesquisas sobre os espaços populares, formar lideranças, elaborar e implementar programas de desenvolvimento e direcionar e avaliar políticas públicas voltadas à superação das desigualdades sociais. Localizado no Complexo da Maré, um dos maiores conjuntos de assentamentos informais do Rio de Janeiro, o Observatório vai além das periferias para afirmar uma agenda de Direitos à Cidade — uma cidade unificada, progressista, que garanta a cidadania e o respeito às diferenças.
Fundada por intelectuais oriundos das comunidades, hoje a organização concentra 70 colaboradores de origens distintas, que atuam em mais de vinte projetos divididos em cinco áreas: Comunicação, Cultura, Direitos Humanos, Educação e Políticas Urbanas. O mais antigo é o Conexões de Saberes, que fortalece os vínculos entre zonas em vulnerabilidade e 33 universidades federais e incentiva a permanência qualificada dos universitários de origem popular na graduação. Para isso, oferece apoio financeiro e metodológico aos estudantes, que, em contrapartida, devem produzir conhecimentos científicos e planos de intervenção em seus territórios — um fluxo importante de experiências e demandas entre o ensino superior e as periferias urbanas.
O Conexões percorreu o caminho inverso ao da maioria de iniciativas nesse sentido: partiu da favela, dela chegou à universidade e, posteriormente, conquistou o apoio do Estado — hoje, é encampado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação. Esse exemplo prova o poder dos cidadãos organizados e sua capacidade transformadora, potencial também evidente na Escola Popular de Comunicação Crítica (Espocc), outra proposta inovadora do Observatório de Favelas na área da educação.
A Espocc oferece o primeiro curso do país de Publicidade Afirmativa, aquela "que não visa o lucro ou a promoção de uma marca com fins estritamente comerciais, mas promove valores de sociabilidade, a cultura e o empreendedorismo comunitário e socioambiental", como seu programa esclarece. Direcionada a jovens que estejam cursando ou tenham cursado o ensino médio, prioriza os da região metropolitana — 120 das 180 vagas anuais são destinadas a mulheres e negros — e oferece dois tipos de habilitação: Audiovisual ou Cultura Digital.
São 432 horas de aulas, realizadas na sede do Observatório e nas de seus parceiros, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Universidade Federal Fluminense e o Canal Futura. Além de conhecimento conceitual, técnico e prático padrão de cursos de propaganda, os educandos também estudam história brasileira, sociologia, política e ética. Adaptando — ou subvertendo — a linguagem e as ferramentas da publicidade convencional, a ideia é que elaborem campanhas que questionem práticas que firam a dignidade humana e que favoreçam as relações pessoais, a vida e os direitos.
A Espocc tem apoio da Petrobras, da Brazil Foundation e do ICCO e
já formou cerca de 150 alunos, que recebem ainda reforço em Português, certificado de extensão universitária, lanche e ajuda de custo. Uma agência própria, a Diálogos, representa o portfólio da escola, que inclui projetos importantes — entre eles a campanha Juventude Marcada para Viver, a série de TV Crônicas Urbanas e o filme 5X Favela, Agora Por Nós Mesmos, resultado de uma colaboração com o cineasta Cacá Diegues.
A educação é a principal ferramenta para que aqueles que nascem nas favelas consigam superar sua condição historicamente subalternizada. Não a educação pública de baixo aproveitamento ou os centros universitários rígidos e impermeáveis às suas realidades, mas o ensino de qualidade, que além de qualificar para o mercado de trabalho, estimule a reflexão, o pensamento crítico e a postura ativa. O observatório de Favelas mostra que é uma educação possível.
Fotos: De Baixo Para Cima, Espocc.
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