Protestos criativos fortalecem luta por transporte em comunidades isoladas

Felipe Villela, Coordenador da Rede em São Paulo
São Paulo, 8 Julho 2015

No extremo sul da maior cidade brasileira tem gente que precisa caminhar até 14 km para chegar ao ponto de ônibus mais próximo. Cansados de perder oportunidades de trabalho e consultas médicas, moradores criaram "linhas populares" de ônibus para protestar contra a negligência da prefeitura.

A falta de trabalho, de equipamentos públicos de educação e saúde faz de Marsilac o distrito com o pior IDH de São Paulo.

Para se chegar ao centro da cidade partindo da comunidade de Ponte Seca, por exemplo, é preciso caminhar por estrada de terra e depois viajar três horas de ônibus até o Terminal Bandeira.

Motivados pela necessidade de melhorar a integração com o resto da cidade, moradores aderiram ao coletivo Luta do Transporte no Extremo Sul. Esta articulação foi um desdobramento das grandes manifestações contra o aumento das tarifas de transporte em junho de 2013, organizadas pelo Movimento Passe Livre (MPL).

Na primeira ação do grupo, moradores de Ponte Seca e Mambu arrecadaram dinheiro em um bingo comunitário e fretaram um ônibus, que circulou gratuitamente durante um dia no mês de março de 2014. A "linha popular", segundo os organizadores, ajudou a vincular novos moradores à causa e a ampliar o debate, chamando atenção da imprensa.

O ano seguinte foi marcado por novos protestos e reuniões com técnicos do governo. Em abril de 2014, por exemplo, três moradores se acorrentaram à porta de entrada da prefeitura.

Em abril de 2015, o coletivo decidiu apresentar a questão diretamente ao prefeito da cidade. Para tanto, interromperam aula de Fernando Haddad na Universidade de São Paulo (USP), onde leciona na pós-graduação em Ciência Política.

Contrariado, Haddad argumentou que a preocupação da prefeitura é que a criação de novas linhas de ônibus nesta região poderia servir como estímulo à expansão da cidade sobre áreas de preservação permanente.

Segundo o Plano Diretor Estratégico (PDE), aprovado em 2014, o distrito de Marsilac está inserido em Zona Rural, com regras para Contenção Urbana e Uso Sustentável da terra.

No entanto, moradores afirmaram precisar urgentemente de transporte e se dispuseram a fiscalizar a ocupação da área, junto com a prefeitura, já que também não desejam a destruição de áreas verdes.

As comunidades onde vivem estão assinaladas no PDE como áreas para Redução da Vulnerabilidade Urbana e Recuperação Ambiental.

Sem o sinal verde da prefeitura, moradores juntaram dinheiro com rifas para fazer mais "linhas populares". Desta vez, ônibus circularam por itinerários diferentes durante três dias consecutivos no mês de maio de 2015. Neste momento, o movimento também contava com a participação das comunidades de Bosque do Sol, Juza e Barragem.

Poucos dias depois deste protesto finalmente chegaram as respostas que esperavam. A prefeitura se comprometeu a criar imediatamente uma linha de ônibus do Bosque do Sol até o Terminal Varginha, passando pela Estrada do Juza, e uma linha de ônibus rural por Mambu/Paiol, Ponte Seca e Marsilac. Esta última depende de aprovação ambiental, por isso circulará experimentalmente e com tarifa zero por apenas 180 dias.

O governo também prometeu estudar a criação de duas novas linhas rurais circulares por Barragem, a reforma de todas as vias da região e a construção de uma nova ponte.

Fotos: Luta do Transporte no Extremo Sul.

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