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Eliana Barbosa

 
Rio 40º — e sem água

Eliana Barbosa, Coordenadora da Rede em Rio de Janeiro

 

Na competição por água no Rio de Janeiro as zonas Norte e Oeste — mais carentes que a famosa Zona Sul — estão claramente perdendo.

A cidade enfrenta um dos verões mais quentes dos últimos tempos e alguns bairros tiveram seu fornecimento de água intermitente por semanas nesse Janeiro, devido em parte à falta de reservatórios em larga escala e à manutenção incipiente na rede de fornecimento.

A falta de água no verão, ironicamente a estação no ano em que mais chove, não é novidade em cidades balneário, que tem um aumento no número de turistas durante o período de festas e férias escolares. Entretanto esse verão foi mais quente e seco que de costume, levando a um aumento no consumo de água da ordem de 200 por cento, de acordo com a CEDAE, empresa pública de saneamento do Rio. As casas deveriam ter reservatório próprio, para compensar a intermitência no fornecimento, o que nem sempre acontece nos bairros mais afastados.

De acordo com o jornal O Globo, apenas 16 por cento da verba de 2013 para a manutenção da rede de distribuição foi usada e, como consequência, as zonas carentes são as mais afetadas. Manutenção é palavra-chave no Rio, já que a topografia ingrime cria diversos desafios à distribuição. Existem mais de 1200 bombas elétricas na cidade, com a finalidade de vencer a topografia garantindo a distribuição da água, entretanto os constantes apagões não contribuem para a eficácia do sistema. Os "gatos", conexões informais presentes nas comunidades do Rio, também são um problema para a distribuição.

O abastecimento de água é de responsabilidade pública na maioria das cidades brasileiras, que operam através de empresas públicas sob tutela do Estado, trabalhando em parceria com as secretarias municipais. Os fundos, entretanto, provém muitas vezes de repasses federais. As construções e grandes reparos e, muitas vezes, a própria manutenção são realizados por empresas privadas contratadas através de licitações que acontecem anualmente, mediante previsão orçamentária. A lei brasileira de licitações prevê a contratação das empresas que oferecem o menor valor para cada determinado serviço, não necessariamente primando pela qualidade. Democrático, porém burocrático, o sistema leva a ineficiência da oferta de serviços públicos relacionados ao saneamento e à eletricidade.

A falta de água nesse verão chamou a atenção do Procon-RJ, que criou uma operação especial chamada "Vidas Secas" — remetendo ao célebre romance de Graciliano Ramos passado no sertão nordestino — através da qual uma unidade móvel percorreu bairros afetados na Zona Norte e Oeste da cidade. A operação criou um canal direto de comunicação para os habitantes prestarem queixa acerca do serviço de fornecimento de água e em três dias recolheu 59 queixas, permitindo que o PROCON - RJ acionasse e penalizasse a CEDAE, aplicando multa diária até que o serviço normalize.

Enquanto as autarquias se desentendem, a falta de água tem sido contornada pelos próprios habitantes. Vê-se um movimento constante de pessoas carregando baldes e latões pelas ruas. Alguns grupos se organizaram para comprar bombas d’água e caminhões pipa, outros constroem poços artesianos e estruturas para coletar água das chuvas quando possível. Vizinhos partilham a pouca água que conseguem entre si, afinal, o Rio 40º não vai se refrescar tão cedo.

 

Foto: Fernando Stankuns