As barreiras para participação colaborativa na cidade
Em meu projeto de pesquisa para o Mestrado, investiguei a relação do brasileiro (mais especificamente do paulistano) com cidade – o que pode instigar ou afastá-lo para uma ação ativa e colaborativa com o espaço urbano. No estudo[1], foi possível identificar três barreiras culturais que afastam o cidadão brasileiro das questões da cidade:
- O "não senso de responsabilidade" pela rua: historicamente o Brasil diferencia os ambientes de casa e da rua. Um dos entrevistados citou essa relação analisada por DaMatta (1997), no seu livro "A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil", que aborda o comportamento do brasileiro ao diferenciar em duas lógicas o espaço da casa, onde tudo é permitido, pessoal e privado; e o da rua, onde é impessoal, inseguro e marginalizado. O ideal seria misturar esses conceitos. Essa percepção gera um distanciamento do cidadão com as questões da rua, já que não se sente responsável por elas.
- Não há aprendizado sobre administração compartilhada: o brasileiro não aprende a administrar de forma compartilhada as questões do lar, da escola e dos espaços públicos. Desta forma, não sente responsabilidade pelas decisões tomadas nessas esferas ao longo da sua vida, o que dificulta uma formação participativa e coletiva na construção da cidade.
- "Lógica dos condomínios fechados": o terceiro comportamento do brasileiro, que vem se intensificando nos últimos anos, é a adoção da lógica de "condomínios fechados". Isto é, o cidadão passa a viver em áreas isoladas e com alta segurança, que o incentiva a usar o carro para resolver as questões práticas. Um dos entrevistados percebe que esse comportamento é visto como um indicador de sucesso, mas que na verdade, gera um distanciamento do cidadão com os espaços de convivência da cidade. Com isso, cria-se um afastamento ainda maior entre as pessoas e as questões da cidade.
A principal consequência desses comportamentos é a transferência da responsabilidade pela conservação e organização dos espaços públicos para o Governo, que é considerado ineficiente, corrupto e lento. Há uma dependência do poder público e a expectativa que tomará a frente dos problemas da cidade.
Então, como mudar essa realidade? Um dos aprendizados do estudo foi compreender que o envolvimento dos cidadãos precisa mudar, para que haja espaço para a inovação no contexto urbano. Isto é, a necessidade de despertar as pessoas para olharem criativamente para a cidade. Para isso acontecer é preciso tirá-las da sua zona de conforto e gerar um novo diálogo com demais moradores, governantes, instituições e o próprio espaço. Existe uma percepção de que os cidadãos não se veem como parte integrante deste sistema e com poder para impactá-lo de forma ativa e positiva. Essa dificuldade é o ponto central do problema, já que sem esse despertar não há aproximação do cidadão com a cidade ou formas de viabilizar a colaboração.
Muitas pessoas utilizam o conceito de "cidade para pessoas" como um ideal de integração dos moradores com o espaço público, porém os resultados do estudo mostram a necessidade de destacar a ideia de uma "cidade feita pelas pessoas". Que tal começar a praticar esse novo olhar para a cidade?
[1]Projeto de pesquisa da Dissertação “Design para inovação social: a cidade feita pelas pessoas”, desenvolvido no ano de 2013 em São Paulo.

So what can be done to change this reality? In my study, I noted that citizens need to change their relationship with the city. There is a need to awaken and start looking creatively at the city. For this to happen, new dialogues must be placed between citizens, governments, institutions and public space. In the end, it means that citizens must see themselves as part of the city system and believe in their own power to improve the city. Without this knowledge, the possibility of implementing a new collaborative model is unlikely.
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